terça-feira, 29 de novembro de 2016

TURISMO RURAL

TURISMO RURAL
 Bel. Edison Vitor Franco*
 RESUMO
 O interesse pelo turismo rural, associado à expansão da oferta de turismo no Brasil possui aspectos que assinalam para uma popularização do turismo rural e sua exposição nos mais diversos meios de comunicação. Consequentemente, a utilização do termo turismo rural vem se expandindo, de modo que é comum a utilização eventual e, por vezes, seu conceito é confundido, por esta razão apresentam-se neste artigo, conceitos de turismo no espaço rural, turismo rural e agroturismo. Baseado em estudos e interpretações de pesquisadores do relevante tema busca-se o turismo no espaço rural uma relação aos conceitos trabalhados, com resultados viáveis para a região noroeste do RS. 
Palavras-chave: turismo rural, agroturismo, resultados.  



*Edison Vitor Franco Bacharel em Administração com Habilitação em Comércio Internacional. CRA/RS.  Nº 33.886.
Turismólogo, com registro na ABBTUR nº. 15.383/RS.
Instrutor de Cursos e Guia de Turismo Regional e de Excursão Nacional, registrado no Cadastur Mtur nº 23. 010204.96-0.

INTRODUÇÃO
 As pesquisas e estudos pautados ao turismo no espaço rural são compreensíveis no Brasil e, em vários países, principalmente, a partir da década de 1990. Assim, o crescimento do turismo no espaço rural está profundamente ligado ao aumento da oferta turística rural, assim como, uma maior procura da sociedade por atrativos e empreendimentos relacionados ao bem-estar no campo.
A Organização Mundial do Turismo (OMT) apresenta ações governamentais de apoio e regulamentação do turismo, assim como, provoca debates sobre a viabilidade de abertura das propriedades rurais com a finalidade de oferecer atividades de turismo com a possibilidade de oferecer atrativos naturais, históricos, culturais e até gastronômicos.
Apesar de ter um crescimento concentrado na Europa e nos Estados Unidos, a partir da década de 1960, o turismo ganha força na discussão sobre desenvolvimento rural em vários países no início da década de 1990, período em que cresce o fenômeno da pluriatividade no espaço rural; a concepção de multifuncionalidade do agricultor e da agricultura; bem como, o interesse dos agentes turísticos e da população urbana pelo rural e pelas ruralidades. 
Sabendo da relevância do turismo rural como fenômeno de transformação do espaço geográfico, discutem-se os conceitos de turismo no espaço rural, turismo rural e agroturismo.

1) ELEMENTOS HISTÓRICOS DO TURISMO NO ESPAÇO RURAL
 O crescimento global da oferta turística vem intensificando a diversificação das modalidades turísticas, chamada de segmentação, e, por conseguinte, a busca/criação de novas destinações e de novos produtos turísticos nas últimas décadas. 
Com a saturação das destinações turísticas “convencionais” (modelo sol e praia), da segmentação dos setores do mercado com o regime de acumulação flexível do capital, a partir da década de 1990, o turismo passa a ser, ideologicamente, polarizado entre turismo convencional/de massa e turismo alternativo/sustentável.
Entre as “modalidades” turísticas consideradas alternativas, destacam-se o ecoturismo e o turismo rural, pois ambos pressupõem, teoricamente, que haja uma valorização dos espaços “naturais” e ruralizados. Essa valorização conduziria a um aproveitamento dos recursos naturais, dos objetos técnicos já instalados, e do saber-fazer local. Além disso, o turismo rural tenderia a ser um turismo mais simples, individualizado, de base local, e, portanto, não levaria a grandes mudanças na configuração da paisagem rural. 
Em virtude do desenvolvimento econômico pautado na industrialização e das conquistas trabalhistas nos países europeus - como as férias, redução da jornada de trabalho e décimo terceiro salário - ambos ocorridos, a partir do fim da Segunda Guerra Mundial, o turismo rural se expande na Europa, passando a ser uma atividade economicamente promissora e incentivada em países como França, Espanha e Itália. 
Além dos incentivos públicos para a expansão do turismo como setor econômico estratégico e da organização do trade turístico para viabilizar o turismo rural, o interesse dos citadinos pelo espaço rural, seja para visitas esporádicas ou para moradia, contribuiu para a afirmação do turismo rural.
O processo de retorno ao campo é denominado neo-ruralismo, iniciado na década de 1970, na França e em outros países europeus. Segundo Giuliani (1990), o neo-ruralismo expressa à ideia de que, uma série de valores típicos do velho mundo rural passa por um revigoramento e começa a ganhar a adesão de pessoas da cidade.
Presvelou (2000) lembra que as visitas ao campo já eram comuns, sobretudo, para rever parentes e amigos e para o descanso. Todavia, a novidade no interesse pelo rural encontra-se no deslocamento de pessoas na qualidade de turista para o espaço rural.
Durante a década de 1980, há um incremento do turismo no espaço rural europeu, que passa a ser visto como alternativa de renda em função de problemas estruturais nas propriedades rurais, como os baixos preços dos produtos agrários e a redução do protecionismo (TULIK, 2003). 
Para Baidal (2000), as possibilidades do turismo rural/natural constituem um aparato para reativação de áreas industriais com problemas, dinamização de áreas rurais atrasadas e diversificação da estrutura econômica regional.
A partir da experiência europeia da década de 1990 em incentivar o turismo como uma atividade econômica viável para o meio rural, a qual valoriza o ambiente e a cultura local, o turismo no espaço rural passou a ser considerada uma alternativa de emprego, renda e de desenvolvimento para o rural em todo o mundo.
No Brasil, o interesse pela expansão do turismo rural por parte do Poder Público também vem crescendo significativamente a partir da década de 1990, assim como a agricultura familiar que passa a ofertar produtos turísticos no espaço rural.
Além das dificuldades econômicas dos agricultores e da agricultura em todo o mundo, o apelo ambiental de usos menos degradadores dos recursos naturais e do desenvolvimento sustentável, popularizado no início da década de 1990, contribuíram para a consolidação da ideologia do turismo rural (do ecoturismo e de outras modalidades) como atividades potencialmente promotoras do desenvolvimento sustentável. O interesse da sociedade urbana pelo ambiente e pela cultura rural também se apresenta como um dos grandes argumentos para o crescimento do turismo rural, e, consequentemente, para a revitalização do espaço rural.  Autor renomado da área do turismo, também vê o turismo rural como algo específico do modo de vida rural, classificando-o como o conjunto de atividades que compõem a vida no campo, envolvendo a experiência do dia a dia nas fazendas, o convívio com camponeses, a montaria de cavalos, as plantações, as pastagens, o sabor dos alimentos degustados diretamente da fonte.
Zarga (2001 apud Bricalli, 2005, p. 43) afirma que o turismo rural é “uma atividade que se realiza no mundo rural, composta por uma oferta integrada de ócio dirigida a pessoas interessadas pelo entorno autóctone, pelas atividades rurais e que tenham uma inter-relação com a sociedade local.” 
O turismo no meio rural consiste em atividades de lazer realizadas no meio rural e abrange várias modalidades definidas com base em seus elementos de oferta: turismo rural, turismo ecológico ou ecoturismo, turismo de aventura, turismo cultural, turismo de negócios, turismo jovem, turismo social, turismo de saúde e turismo esportivo. 
Quando se fala em turismo no meio rural, estão incluídas, portanto, todas as modalidades turísticas praticadas nesse espaço, independentemente da motivação e das atividades envolvidas. Assim como, o termo turismo no meio rural, outros autores preferem utilizar o termo turismo no espaço rural ou turismo em áreas rurais. Torna-se interessante nesse debate quando se fala em turismo no espaço rural, o componente espacial é preponderante em relação às atividades desenvolvidas, de modo que qualquer atividade turística desenvolvida em um espaço que não seja urbano faz parte do turismo no espaço rural, mas não necessariamente corresponda a uma atividade de turismo rural.
Beni (2002, p. 31) conceitua o turismo rural como o “deslocamento de pessoas para espaços rurais, em roteiros programados ou espontâneos, com ou sem pernoite, para fruição dos cenários e instalações rurícolas”. O pesquisador brasileiro aplica o mesmo conceito de turismo ao rural, porém destaca a paisagem e os equipamentos rurais como principais motivadores das viagens.
Rubelo; Luchiari (2005 p. 214), também apresentam um conceito de turismo rural próprio e bastante abrangente, entendendo-o como: [...] a somatória de possibilidades que permite ao turista conhecer as práticas sociais das famílias rurais, a cultura rural, o contato com as atividades do campo, com a natureza, com a herança material, expressa ainda nos objetos utilizados para desenvolver as atividades de produção agrícola, e o saber local.
Novaes (2004) apresenta a definição de turismo rural da Organização Mundial do Turismo (OMT), que também destaca o turismo como atividade complementar e integrada à agropecuária. 
O Turismo Rural refere-se a lugares em funcionamento (fazendas ou plantações) que complementam seus rendimentos com algumas atividades turísticas, oferecendo geralmente alojamento, refeições e oportunidades de adquirir conhecimentos sobre as atividades agrícolas.
Desta forma, ao considerar as referências dos autores citados, o turismo rural está, necessariamente, vinculado às características do meio rural (produção agrícola e/ou pecuária, paisagens rurais com vegetação nativa e secundária, arquitetura rural, o contato direto com o modo de vida dos habitantes do campo e com os animais, a culinária da “roça”, entre outras).
Devido ao amplo debate sobre a conceituação do turismo rural, a EMBRATUR (Empresa Brasileira de Turismo) também teve dificuldades em estabelecer um marco conceitual oficial para o turismo rural brasileiro. Tulik (2003) afirma que, em 1994, a EMBRATUR adotou o turismo rural como um conceito múltiplo e, de certa forma, confuso, pois abrangeria o turismo diferente, de interior, doméstico, integrado, endógeno, alternativo, agroturismo e turismo verde. O principal objetivo do turismo rural no Brasil seria gerar emprego e renda com vistas ao desenvolvimento local.
Entretanto, Tulik (2003, p. 74) afirma que, em 2002, houve uma mudança no conceito de turismo rural da EMBRATUR, que passou a ser considerado “um segmento do turismo que proporciona conhecer, vivenciar e usufruir as práticas sociais, econômicas e culturais próprias do meio rural de cada região de forma sustentável”. Mesmo com a mudança conceitual, o turismo rural manteve-se vinculado às práticas rurais, e não somente ao espaço rural, mostrando que a existência ou manutenção das atividades agropecuárias são elementos essenciais para caracterizar o turismo rural. No entanto, este conceito passa a fazer referência à sustentabilidade no turismo, demonstrando a força da ideologia do turismo sustentável. Em 2004, o conceito de Turismo no Espaço Rural também passa a ser adotado pelo governo federal. Em documento do Programa Nacional de Turismo Rural na Agricultura Familiar, o turismo no espaço rural abrangeria todos “os equipamentos localizados na área rural que desenvolvem atividades de lazer, recreação, esportivas, de eventos, não apresentando, basicamente, vínculo com a produção agropecuária e a cultura rural”. (BRASIL, 2004, p. 7).
De forma geral, o agroturismo apresenta todos os atributos do turismo rural, sobretudo, pelo fato de ser uma atividade realizada no espaço rural, ocorre, porém, que o diferencial do agroturismo em relação ao turismo rural diz respeito à participação direta e/ou indireta do turista em atividades comuns dos agricultores, como plantio, colheita, ordenha, entre outras. Nesse sentido, toda a oferta de agroturismo poderia ser classificada como turismo rural, porém, nem toda a oferta de turismo rural pressupõe a existência do agroturismo. 
Beni (2002, p. 32) apresenta o conceito de agroturismo: “[...] deslocamento de pessoas para espaços rurais, em roteiros programados ou espontâneos, com ou sem pernoite, para fruição dos cenários e observação, vivência e participação em atividades agropastoris.” Comparando os conceitos atribuídos por Beni de turismo rural e de agroturismo, a única inserção feita para o agroturismo diz respeito à vivência e participação dos turistas em atividades agropastoris. Afirma ainda que dois aspectos distinguem o agroturismo do turismo rural, são eles:
1. A produção agropastoril é a maior fonte de renda da propriedade de agroturismo, de modo que o turismo gera uma receita complementar; 
2. As próprias atividades agropastoris constituem o principal diferencial turístico, de modo que o turista pode participar ou não da rotina da propriedade.
No que tange à ideia do turismo como fonte de renda complementar às atividades agrícolas, os conceitos de turismo rural da OMT e da EMBRATUR também apontam para esse princípio. Apesar de ambas as instituições não apresentarem um conceito específico de agroturismo – dando a impressão de entenderem este como sinônimo de turismo rural – elas consideram que a complementaridade com as atividades agropecuárias deva fazer parte do turismo rural.  
Mesmo em empreendimentos turísticos rurais altamente técnicos, como um haras, uma fazenda experimental ou um pesque-pague, algum tipo de atividade agropecuária é mantido. Assim, afirma-se que a complementaridade com atividades agropecuárias deve fazer parte de qualquer oferta de turismo rural, mas tais atividades podem ser ou não os principais atrativos do turismo rural.
Logo, no agroturismo, as atividades agropecuárias, além de antecederem o turismo, são os grandes atrativos turísticos. Para Bricalli (2005), o agroturismo está intimamente relacionado às atividades agropecuárias da propriedade, e aquelas que ofertam essa modalidade costumam ser pequenas (até 50 ha) e de estrutura familiar. Não obstante, concordamos com Beni (2002), que no agroturismo deva haver complementaridade com as atividades agropecuárias, pois, além de estas se constituírem nos principais atrativos do agroturismo (seja através do contato com plantações e animais, da oferta de refeições, ou da compra e consumo de produtos alimentares in natura ou processados), geralmente, garantem a sobrevivência dos agricultores e de suas famílias, principalmente, nos períodos de pouca visitação. 
Silva; Vilarino; Dale (2000) utilizam o conceito de agroturismo como sinônimo de turismo rural, fato que se considera questionável, pois se considera que o agroturismo tem mais especificidades que o turismo rural. Os autores ponderam que o agroturismo seria uma estratégia de diversificação produtiva das propriedades rurais, através de atividades internas à propriedade e ao modo de vida rural, que geram ocupações complementares às atividades agrícolas. Como exemplos, citam a fazenda-hotel, o pesque-pague, a fazenda de caça, a pousada, o restaurante típico, as vendas diretas do produtor, o artesanato, a valorização da paisagem, e a industrialização caseira.
Novaes (2004) procura estabelecer um debate em torno da conceituação sobre o turismo rural, porém não avança muito, pois diferencia turismo no espaço rural de turismo rural, mas, assim como Silva; Vilarino; Dale (2000) veem o turismo rural e o agroturismo como sinônimos.
Verbole (2002) ressalta o envolvimento dos proprietários dos empreendimentos em atividades agropecuárias, mas não vincula o agroturismo à participação do turista em tais atividades. Para o autor, os empreendedores do agroturismo devem ser agricultores. Como Verbole é europeu e chama de turismo rural qualquer atividade turística realizada no espaço rural, seu conceito de agroturismo parece ser similar ao conceito de turismo rural utilizado no Brasil e oficializado pela EMBRATUR, pois o autor destaca a existência de alguma atividade agropecuária como elemento definidor do agroturismo. 
Ao usar o termo turismo rural como sinônimo de turismo no espaço rural, Baidal (2000) apresenta uma definição de agroturismo distinta da de Verbole (2002), pois considera a participação do turista em atividades agropecuárias, e acrescenta a oferta de pernoite na propriedade rural como uma exigência básica para se afirmar a existência do agroturismo. No entanto, para Baidal (2000), o agroturismo:
[...] se fundamenta no desfrute de experiências ligadas a uma exploração agrícola ou pecuária.  É o próprio agricultor quem aloja o turista (em sua própria residência ou em edificações já existentes adaptadas para pernoites), e este participa das tarefas agrícolas ou pecuárias, ativamente ou como expectador.
Na tentativa de estabelecer um conceito adaptado à realidade brasileira, os autores veem o agroturismo relacionado à:
Atividades internas à propriedade, que geram ocupações complementares do cotidiano da propriedade, em menor ou maior intensidade, sendo parte de um processo de agregação de serviços aos produtos agrícolas e bens não materiais existentes nas propriedades rurais (paisagem, ar puro, etc.), a partir do "tempo livre" das famílias agrícolas, com eventuais contratações de mão de obra externa. (CAMPANHOLA; SILVA, 2000, p. 148). 
No entanto, a ênfase dada às famílias agrícolas como receptoras do agroturismo abre uma nova frente de debate, vinculada à viabilidade e às consequências da inserção de agricultores familiares na oferta do turismo rural e, mais especificamente, do agroturismo.
Nas definições de Verbole (2002) e Baidal (2000), existem diferenças significativas nas conceituações em torno do agroturismo na Europa.
Tulik (2003) apresenta os princípios que devem nortear o agroturismo: 
- Atividade agrícola e/ou pecuária na propriedade;
- Turismo como atividade complementar da renda e das outras atividades agrícolas;
- Organização e gestão familiar, sendo obrigatória a presença do proprietário;
- Alojamento em propriedade rural integrado à moradia do proprietário, ou em apartamentos individuais remodelados ou construídos para este fim;
- Alimentação baseada na cozinha tradicional do lugar e elaborada com produtos locais;
- Eventual oferecimento de atividades alternativas de lazer e recreação no entorno da propriedade;
- Participação do turista nas atividades rotineiras (cultivo e colheita, cuidados com o gado, preparação de alimentos tradicionais) ou, pelo menos, possibilidade de observação;
- Contato direto com o meio rural e a população residente;
-Caracterizado como um modelo difuso, em pequena escala, não congestionado, com aproveitamento máximo dos recursos existentes.
Pondera-se que essa sistematização dos princípios do agroturismo feita por Tulik (2003) é extremamente pertinente para se pensar a definição de agroturismo no Brasil. Apesar de discordarmos com a simples importação de conceitos elaborados em realidades diferentes da brasileira, os princípios apresentados mostram algumas peculiaridades do agroturismo, sobretudo, no que tange à participação do turista nas atividades da propriedade, o aproveitamento da culinária local, e o contato entre turistas e autóctones. 
Bricalli (2005) procura expor o turismo rural, e sugere três novas categorias dentro do turismo rural: o turismo rural familiar, turismo rural empresarial e turismo rural misto. Na categoria familiar ideal,  
[...] a residência do empreendedor é no próprio empreendimento, a mão de obra utilizada nas tarefas é familiar, o estilo das edificações apresenta características rurais, os atrativos turísticos são locais e as atividades agrícolas se fazem presentes. 
Já na categoria empresarial ideal,  
[...] a residência do empreendedor é fora do empreendimento, a mão de obra utilizada nas tarefas é contratada, o estilo das edificações apresenta características urbanas, os atrativos turísticos são artificiais e as atividades agrícolas não existem. 
As situações descritas por Bricalli (2005) como ideais estão situadas em extremos, podendo, na prática, ocorrer situações intermediárias. Para os empreendimentos que apresentaram características dos dois modelos, o autor usou, em seu estudo empírico, a categoria turismo rural misto.
Em nossa opinião, o conceito de agroturismo permite incorporar grande parte dos agricultores familiares envolvidos com o turismo, pois, além da existência de atividades agropecuárias, os agricultores familiares costumam ter seus principais atrativos vinculados a tais atividades, seja por meio da observação e da participação em atividades agrícolas e pecuárias, da comercialização de produtos in natura e transformados, do uso de animais para atividades de lazer (pesca, passeios a cavalo, charrete, carro de boi), e do modo de vida rural tradicional, onde se planta e se vive da “terra”. Registre-se, no entanto, que também existem agricultores familiares que abrem suas propriedades por possuírem algum atrativo natural (cachoeiras, rios, escarpas, cavernas, matas), e que não aproveitam a demanda existente para valorizar suas atividades agropecuárias cotidianas. Estes agricultores não estariam ofertando agroturismo, mas o ecoturismo ou o turismo eco rural, ambos inseridos no turismo no espaço rural.
Tessari (2001) elenca os seguintes objetivos do agroturismo: - promover a melhoria da vida da população rural, complementando a renda; - reduzir o fluxo e os efeitos do êxodo rural; - valorizar o potencial agrícola e turístico do campo; - reforçar a filosofia de um turismo que promova a conservação ambiental e a cultura regional.
Os objetivos apontados por Tessari (2001) demonstram que o agroturismo deve ter como maior beneficiária a população rural, sobretudo, os agricultores. Não obstante, os projetos e políticas públicas de agroturismo devem ter como foco a melhoria da qualidade de vida do homem do campo, e não o atendimento aos anseios e ao imaginário dos turistas, fortemente influenciados pelo trade e pela mídia.
Moraes; Leite; Souza (2006) indicam as seguintes características utilizadas para definir o empreendimento agroturístico:
- O agricultor deve desenvolver atividades agropecuárias e residir na propriedade;
- A mão de obra familiar ocupada na atividade do turismo deve representar no mínimo 50% da mão de obra total no período de maior demanda turística;
- A renda das atividades agropecuárias deve ser igual ou maior a 20% da renda líquida anual da unidade familiar.
No entanto, as características usadas por Moraes; Leite; Souza (2006) não faz nenhuma referência à necessidade de participação direta ou indireta do turista em atividades agropecuárias tradicionais, fato que se considera fundamental para caracterizar o agroturismo. Assim, as características que os autores acima utilizam para definir um empreendimento agroturístico, correspondem em nossa opinião, a importantes características para definir os empreendimentos de turismo rural de propriedade e/ou gestão por parte de agricultores familiares, mas não se constituem em características definidoras do agroturismo.
 Referente aos conceitos de turismo rural é pertinente ressaltar o uso indevido dos termos turismo rural e agroturismo em empreendimentos que não oferecem pernoite. Geralmente, há uma preferência de agências, empreendedores, comerciantes e políticos em enfatizar a comercialização de uma oferta de turismo rural e agroturismo, pois isso atrai mais os turistas em potencial. Todavia, a maior parte dos empreendimentos que dizem oferecer o turismo rural e o agroturismo, ao não ofertarem o pernoite, estariam oferecendo apenas o lazer ou o excursionismo, e não propriamente o turismo.  
 CONSIDERAÇÕES FINAIS 
O debate conceitual se faz pertinente para qualquer área do conhecimento, pois através dos conceitos, dialoga-se com a realidade e teoriza os elementos empíricos que são pesquisados. Ao perceber um uso indiscriminado dos conceitos relacionados ao turismo rural, com destaque para o próprio conceito de turismo rural, onde quase toda a oferta de lazer e turismo presente no complexo, heterogêneo e híbrido “espaço rural” é comumente autodenominada como turismo rural, procura-se discutir e apresentar elementos do debate em torno do conceito de turismo rural.
Ao estabelecer a diferenciação entre turismo no espaço rural; turismo rural e agroturismo buscamos posicionar-nos frente a esse debate, sem, no entanto, ignorar outros conceitos correlatos já utilizados por instituições públicas, privadas e no meio acadêmico, como o de turismo rural na agricultura familiar, turismo comunitário, turismo de base local, entre outros.
Acredita-se que a reflexão acerca dos conceitos de turismo, em geral, e sua correta aplicação entre o trade turístico, na mídia e também na sociedade em geral, tendem a qualificar a oferta e a demanda turística no espaço rural, e a proporcionar condições para o necessário aperfeiçoamento dos conceitos e da aplicação destes nas realidades empíricas estudadas em todo Brasil, pois a abstração teórica e conceitual é fundamental para apreender o real. 
  REFERÊNCIAS
BAIDAL, Josep A. I. 2000. Turismo y espacios rurales: conceptos, filosofias y realidades. Estudios territoriales, Buenos Aires, n. 23, p. 59-88. 
BENI. M. C. 2002. Conceituando turismo rural, agroturismo, turismo ecológico e ecoturismo. In: BARRETTO, Margarita e TAMANINI, Elizabeth. (Org.). Redescobrindo a ecologia no turismo. Caxias do Sul: EDUCS, p. 31-34. 
BRASIL.2004.  Programa Nacional de Turismo Rural na Agricultura Familiar. 
BRICALLI, Luiz Carlos. 2005. Estudo das tipologias do Turismo Rural – Alfredo Chaves (ES). Santa Maria: Ed. Facos. 
CAMPANHOLA, Carlos; SILVA, José G. da. 2000. O turismo como nova fonte de renda para o pequeno agricultor brasileiro. In: ALMEIDA, J. A. e RIEDL, M. (Org.). Turismo rural: ecologia, lazer e desenvolvimento. Bauru, SP: EDUCS, p. 145-179. 
GIULIANI, Gian. M.1990. Neo-ruralismo: o novo estilo dos velhos modelos. Revista Brasileira de Ciências Sociais, São Paulo, n.14, ano 5, out. p. 59-67. 
MORAES, Cléia S.; LEITE, Juliano; SOUZA, Marcelino. 2006. O processo administrativo em empreendimentos de agroturismo em SC. In: CONGRESSO INTERNACIONAL SOBRE TURISMO RURAL E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL, Santa Maria. 
NOVAES, Carla A. 2004. Turismo rural e agroturismo diferenciado de turismo em espaço rural: uma proposta. In: CONGRESSO INTERNACIONAL SOBRE TURISMO RURAL E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL, 4, 2004, Joinville. Anais... Joinville: IELUSC, (CD ROM). 
PRESVELOU, Clio. 2000. Ações inovadoras em turismo rural. In: ALMEIDA, J. A. 
RUBELO, João e LUCHIARI, Maria T. 2005. O Circuito das Frutas – SP no contexto do turismo rural. CONGRESSO BRASILEIRO DE TURISMO RURAL, 2005, Piracicaba. 
SILVA, José G. da; VILARINHO, Carlyle; DALE, Paul. 2000. Turismo em áreas rurais: suas possibilidades e limitações no Brasil. In: ALMEIDA, J. A. 
TESSARI, R. O que é agroturismo? 2001. In: PORTUGUEZ, A. P. (Org.). Consumo e espaço: turismo, lazer e outros temas. São Paulo: Roca. 
TULIK, Olga. 2003. Turismo Rural. São Paulo: Aleph.

VERBOLE, A. 2002. A busca pelo imaginário rural. In: RIEDL, Mario; ALMEIDA, Joaquim A.; VIANA, Andyara L. B. (Org.). Turismo rural: tendências e sustentabilidade. Santa Cruz do Sul: EDUNISC, p. 117-140.  

quinta-feira, 25 de junho de 2015

COMTUR ESTEVE EM AUDIÊNCIA COM PREFEITO VICINI

Da esquerda para direita: Anderson Farias -Secretário de Cultura e Turismo; Alcides Vicini -  Prefeito de Santa Rosa; Ten. Cel. Vladimir Ribas - Vice-Presidente do COMTUR; Helio Meotti - Presidente do COMTUR; Edison Franco - Secretário executivo e Vitor Abreu- Diretor de Turismo.

A direção executiva do Conselho Municipal de Turismo de Santa Rosa (RS) esteve em audiência com o prefeito Alcides Vicini, ocasião em que o presidente Hélio Meotti se reportou a algumas iniciativas do COMTUR, como por exemplo, a criação de câmaras temáticas, o apoio ao Projeto Xuxa, o apoio ao Projeto Cascata do Rio Santa Rosa e a ideia de se levar a efeito roteiros turísticos em Santa Rosa, além é claro da busca de parceria com a iniciativa privada.

Na oportunidade o secretário de Cultura e Turismo Anderson Farias e o diretor de Turismo Vitor Abreu se fizeram acompanhar daquela diretoria, passando outras informações de ações que já estão sendo implementadas pela Secretaria Municipal de Cultura e Turismo. O prefeito Vicini gostou da visita, acontecida no dia do Povo e reconheceu a importância do Conselho como órgão que também estimula as parcerias público-privadas, visando o desenvolvimento do setor.

O diretor Vitor Abreu lembrou que com o apoio do COMTUR já está sendo preparado um importante fórum de turismo para o dia 14 de agosto vindouro, envolvendo agentes de turismo de toda a região.

Editado por: Edison Franco – 24 de Junho 2015.
Fonte: http://www.santarosa.rs.gov.br/noticias_ver.php?id=5662




quinta-feira, 28 de agosto de 2014

CCJ APROVA PROJETO DE REDECKER QUE VALORIZA TURISMO

A Comissão de Constituição e Justiça da Assembleia Legislativa aprovou por unanimidade, na manhã desta terça-feira (26), o parecer favorável ao projeto de resolução 10/2014, do deputado estadual Lucas Redecker, que inclui o termo turismo na nomenclatura da Comissão de Economia e Desenvolvimento Sustentável. O projeto ainda precisa ser votado em plenário, mas caso seja aprovado, vai alterar o nome da comissão para Comissão de Economia, Desenvolvimento Sustentável e Turismo.
O projeto faz parte do plano de trabalho que Redecker está desenvolvendo junto a Frente Parlamentar do Turismo, por ele criada em abril e que tem por objetivo valorizar e estimular o potencial que esse segmento tem no Rio Grande do Sul. Atualmente, o parlamentar também está promovendo a revisão e consolidação de todas as leis ligadas ao turismo, com o objetivo de criar o Código do Turismo no RS, um trabalho inédito que vai unificar e modernizar a legislação vigente.

No parecer, o relator, deputado Frederico Antunes, manifestou-se favoravelmente ao projeto dizendo que ele não fere o Regimento Interno da AL e que não há impedimento legal para a aprovação da proposta. “Cumpre salientar que o presente Projeto de Resolução, afigura-se em plena sintonia com os termos contidos nos arts. 179, inciso V, 180, inciso III e 181, incisos V e VI todos do Regimento Interno deste Parlamento. Ademais, o art. 225 do RIAL estabelece que, compete, a qualquer Deputado, Comissão Permanente ou à Mesa, a iniciativa de propor, projetos de resolução objetivando modificar o Regimento Interno. Desta forma, inexistindo óbices de ordem constitucional ou legal, nem vícios de qualquer natureza, recomendamos a aprovação do presente Projeto de Resolução”, afirma.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

sábado, 19 de julho de 2014

TURISMÓLOGO

O Turismólogo é o profissional de nível superior que conhece, analisa e estuda o turismo em sua totalidade. 
A profissão foi reconhecida no Brasil por meio da LEI Nº 12.591, DE 18 DE JANEIRO DE 2012, publicada no Diário Oficial da União de 19 de janeiro de 2012.

O termo Turismólogo surgiu no início dos anos 70, com o intuito de normatizar uma categoria de profissionais da área de turismo que não possuem reconhecimento pelo mercado.
Tecnólogo/Bacharel em Turismo = Turismólogo (graduados em Cursos Superiores em Turismo). 
Atribuições do Turismólogo, este deve se mostrar apto, por exemplo, a:

  1. Elaborar políticas de Turismo municipais, estaduais, nacionais, internacionais, transregionais e transnacionais.
  1. Elaborar o planejamento do espaço turístico; 
  1. Analisar e elaborar planos para o desenvolvimento do turismo de uma forma consciente; baseando-se em fatores sociais, culturais e econômicos presentes em cada região; 
  1. Elaborar e coordenar trabalhos técnicos, estudos, pesquisas e projetos em diferentes áreas do turismo (sobretudo academicamente); 
  1. Coordenar e orientar trabalhos de seleção e classificação de locais e áreas vocacionadas para o turismo; 
  1. Coordenar áreas e atividades de lazer para o público em geral; 
  1. Coordenar e orientar projetos de treinamento e/ou aperfeiçoamento de pessoal, em nível técnico ou de prestação de serviços, além de planejar e organizar eventos e viagens. 
  1. Lecionar nas inúmeras instituições (sobretudo as privadas) de ensino superior que oferecem o curso de turismo, notadamente no Brasil; 
  1. Atender a turistas, fornecedores e consumidores em geral em hotéis, estabelecimentos de A&B e entretenimento, agências e operadoras, aeroportos, bureaux e centro de convenções e eventos diversos; 
  1. Vender produtos e serviços turísticos os mais diversos seja autonomamente ou como encarregado no setor comercial em que esteja empregado; 
  1. Realizar as mais diversas tarefas em qualquer atividade que tenha algum envolvimento com o fluxo de veranistas e a dinâmica multidisciplinar e multidimensional do fenômeno turístico. 
Simplificado, este é o trabalho idealizado que se espera do turismólogo e que, frequentemente, não é compatível com a realidade do mercado. O turismólogo deve estar preparado para atuar em qualquer área do turismo, porém a abrangência da atividade requer deste alguma especialização, caso queira se destacar.

O Turismo como atividade econômica tem se mostrado um importante gerador de renda. Porém para que possa gerar seus efeitos positivos deve ser planejado de forma a não acarretar a degradação do meio ambiente ou a concentração dos benefícios gerados por grandes grupos econômicos, daí a importância do planejamento da atividade por um profissional habilitado.

A tendência é que com o crescimento da atividade, os turismólogos alcancem posição de destaque e ocupem cargos mais elevados nas organizações às quais pertencem, ou seja, proprietários.

O QUE É TURISMO!!

Turismo é fluxo de pessoas, integração e alteração de costumes e modos de vida.

É consumo responsável da paisagem. O turismo é multidisciplinar e envolve geografia (uso do solo) economia (efeito renda e emprego, balança de exportações) ecologia (recursos naturais) é história (patrimônio) é sociologia (costumes e qualidade de vida). 

Pode ser considerado como um verdadeiro fenômeno da sociedade atual.
É necessário ter uma visão do turismo baseada em quatro elementos: ambiental, econômico, social e cultural.
Não é porque o turismo é multidisciplinar que todos podem palpitar na gestão de um projeto. Cada um tem que opinar dentro da sua área. A multidisciplinaridade permite que o profissional de turismo para exercer com sucesso sua atividade, busque trabalhar em conjunto com outros profissionais como biólogos, geógrafos, administradores, economistas, profissionais de marketing etc... 

É necessário ter uma visão do turismo baseada em quatro elementos: ambiental, econômico, social e cultural. Não pode haver um trabalho isolado. Deve-se promover o envolvimento da comunidade local, usando o bom senso, de maneira séria e responsável, sem sensacionalismo.

O desafio da implementação do desenvolvimento sustentável no mundo está lançado. A integração entre governos, empresas privadas, organizações não governamentais e sociedade civil, para a construção de um mundo melhor, com preservação ambiental e vida digna para a população, vem sendo articulada por diversas pessoas sérias ligadas ao desenvolvimento do turismo .

A “identidade do” fenômeno “turístico”, a meu ver, deve ser configurada no cotidiano, nos possibilitando eleger como as oito maravilhas do turismo, as posturas a baixo mencionadas:

1)COMPETÊNCIA: capacidade de mobilizar, desenvolver e aplicar conhecimentos, habilidades e atitudes no desempenho do trabalho e na solução de problemas para gerar os resultados esperados. Um hábil administrador nos inúmeros campos profissionais, no convívio com as equipes multidisciplinares, sabe pedir o apoio de áreas afins, buscando entender o turismo em sua totalidade histórica e humanista.

2)CRIATIVIDADE: capacidade para promover a integração com o meio ambiente, criando situações onde o turista possa experimentar a natureza de forma prazerosa, além de dispor de conhecimento, que permita informar sobre cultura, história, flora, fauna, clima, particularidades, curiosidades da região e promovendo, assim, a educação ambiental, através de técnicas de interpretação da natureza, correlacionando com hábitos urbanos, evitando impacto ambiental acima do suporte de carga permitido.

 3)  SEGURANÇA: é necessário saber promover o bem estar e garantir a integridade física dos turistas, combinando com o grupo regras de convívio, viabilizar atividades de entretenimento, lazer e integração, criar relações positivas, manter a motivação na programação, dimensionar os passeios, escaladas e paradas, observar sinais de desgaste, recomendar alimentação e vestuário adequados às atividades, indicar locais para banhos, necessidades fisiológicas.

4) ORGANIZAÇÃO: elaboração do roteiro de maneira criteriosa, confirmando os serviços de apoio, garantindo a possibilidade de comunicação, providenciando transporte especial, garantindo o cumprimento da programação, providenciando alimentação de parada / percurso e acomodação, providenciando materiais e equipamentos necessários, manter em ordem a pasta com documentação da agência, ficha médica e termo de responsabilidade aceitando as condições do roteiro, informar chegada, elaborar relatório e registrar ocorrências orientar o preparo de refeições, o que pode incluir: indicar procedimentos de higiene e segurança alimentar.

5)    PLANEJAMENTO: divulgação de opções de interesse turístico, sugerir outros roteiros, recomendar pontos de compras e passeios adicionais. Orientar motorista, indicando roteiros, horários e pontos de parada, alertar sobre aspectos de segurança, conforto e velocidade adequada ao passeio. Ajustar roteiros, o que pode incluir: alterar atividades e programação considerando as vias de acesso e as condições climáticas, segurança e horários, redefinir trajeto e pontos de parada. Assegurando a satisfação dos clientes, o que incluem: observar a satisfação dos turistas, receber reclamações e sugestões, solucionar problemas e conflitos, indicar melhores posições para fotos e filmagens, apoiar pessoas com necessidades especiais, idosas e crianças, estabelecendo paradas especiais. Dominar roteiros de excursões em ambiente não urbano, o que pode incluir: demonstrar capacidade para conduzir grupos de turistas por percursos que incluam: recepção, traslado e pernoite.

6)    SERIEDADE: as competências necessárias ao alcance dos resultados esperados devem ser avaliadas através dos seguintes conhecimentos, habilidades e atitudes: conhecer flora, fauna, ecologia, geografia física, limites para suporte de carga. Conhecer cartas e mapas, escalas, curvas de nível e técnica de orientação com uso de bússola. Conhecer a legislação ambiental e técnicas de condução de grupo em ambiente natural, condicionamento físico e dimensionamento de esforço. Ser ético ao recomendar pontos de compras ou passeios adicionais

7)EMPREENDEDORISMO: estudos realizados identificaram a capacitação como uma necessidade imediata no atual cenário do turismo. É necessário conhecer as técnicas de entretenimento, lazer, integração e estratégia de solução de conflitos. Conhecer técnicas de vendas. Ser uma pessoa líder e controlado, prática, dinâmica e ativa. Ser empático e expressivo na comunicação, argumentar com lógica de maneira clara e articulada, sem vícios de linguagem. Ser uma pessoa tranquila e segura que mantém o equilíbrio emocional para administrar situações constrangedoras ou de emergência. Criar alternativas de emprego e de oportunidades de renda para as comunidades locais.

8) PROFISSIONALISMO: sólida formação crítica, permitindo que a pessoa entenda politicamente a formação de sua categoria enquanto organização política e sindical. E saiba lutar por um turismo autossustentável que preserve o ecossistema e os interesses nacionais no campo econômico, cultural e político. Apoiando a conservação das áreas visitadas através da geração de benefícios econômicos para as comunidades hospedeiras.

Neste meu processo de escolha das oito Maravilhas do Turismo, esclareço que turismo legítimo é aquele que apresenta um compromisso com a conservação ambiental e cultural e com o desenvolvimento social das comunidades envolvidas, consiste numa alternativa promissora para o desenvolvimento sustentável regional. “É preciso dimensionar o conhecimento e o potencial turístico da região, através do levantamento. de potenciais atrativos, diagnóstico e análise técnica empresarial dos atrativos. naturais e culturais de maneira responsável e construtiva é necessário saber “globalizar, regionalizando".

Edison Vitor Franco – Turismólogo ABBTUR Nº 15.383/RS – Guia de Turismo com Registro no Cadastur Mtur nº 23.010204.96-0 e Administrador de Empresa com Habilitação em Comércio Internacional, CRA/RS nº 033886.



domingo, 5 de janeiro de 2014

BANDEIRA MISSIONEIRA.

Para aqueles que não acompanharam a criação da Nação Missioneira - documento firmado no dia dos 403 anos das Missões - 29.12.2012.


 
Um ano depois da assinatura do documento de criação da Nação Missioneira, ocorrida em 29 de dezembro de 2012, as comunidades dos 30 Povos das Missões do Rio Grande do Sul, situadas no Brasil; Missiones e Corrientes situadas na Argentina; Itapua e Missiones situadas no Paraguai estabeleceram (decidiram criar uma bandeira para o uso comum) uma bandeira comum. A bandeira foi elaborada na cor avermelhada para lembrar a terra ensanguentada pelo sangue do povo missioneiro ocorrido nas guerras. No centro dela está a Cruz Missioneira, na cor dourada para referendar a lembrança do Cristo ressuscitado.


No dia 29 de dezembro de 2013 ocorreu o evento de instituição do símbolo da Nação Missioneira. Esta data foi escolhida por se tratar do dia da comemoração dos 404 anos das Missões em San Ignácio Guazú, primeira Redução Jesuítico-Guarani, fundada em 1609. A cerimônia foi coordenada pelo Provincial dos Jesuítas,  Alberto Luna, sendo que na ocasião foi celebrada uma missa festiva e também a benção da Bandeira.


Na sequência das comemorações, após a apresentação da orquestra local então foram distribuídas as bandeiras para cada região missioneira: Brasil, Argentina e Paraguai.

Momento após a Missa de Benzimento da Bandeira da Nação Missioneira. [San Ignácio Guazú, no dia dos 404 anos das Missões - 29.12.2013] — com Carlos Bedoya, Julio César Vázquez, José Roberto de Oliveira  e Eduardo Alfredo Galeano.
  
Deste modo mais de um milhão de Missioneiros, distribuídos nos três países, agora têm um símbolo comum que é a Bandeira da Nação Missioneira. Sua criação foi inspirada no período da Guerra Guaranítica, ocorrida entre 1754 e 1756. Entre os destroços de Guerra foram encontradas várias bandeiras na Batalha de Caiboaté, conforme os relatórios oficiais, tanto do exército português como dos espanhóis, os nativos usaram a bandeira como símbolo máximo da luta missioneira contra as forças opressoras externas.

A ideia de Nação Missioneira acena para o pertencimento de uma cultura e origem comum (étnica), histórica e de sentimentos de amor à identidade, portanto não poderá ser confundida com a ideia referência a um novo país. “Uma das características essenciais de Nação é que não necessita de um território próprio e nem governo soberano, é essencial um coletivo de pessoas com origem e destino comum, unidos por uma história”.


 
Visitando os 30 Povos Missioneiros são possíveis verificar a mesma origem, traços comuns do modo de ser e vontade de resgatar e preservar uma história que se estende até à atualidade. Basta que se recorde os 160 anos quando foi vivida uma das mais belas experiências da humanidade, citada expoentes da História e da Filosofia. Voltaire denominou de “Triunfo da Humanidade”, Montesquieu como “Primeiro Estado Industrial da América”. Charlevoix e Muratori como um modelo sem precedentes de sociedade cristã.

Posteriormente mente a revista Lês Lettres Edificantes et Curieuses, dirigida pelos jesuítas, comparava os guaranis aos primeiros cristãos e descrevia suas comunidades como a ‘realização ideal do cristianismo’. O Abade Carbonel definiu como “coletivismo espontâneo”. Pablo Hernandez na Organización Social de lãs Doctrinas Guaranies escreveu que o maravilhoso surgia a cada passo. O filósofo Rayal registrou: “Aí se observavam as leis, reinava uma civilidade exata, os costumes eram puros, uma fraternidade feliz unia os corações, todas as artes de necessidade estavam aperfeiçoadas. A abundância era ai universal, teve a graça das crianças, uma pureza repleta de candura. O mundo novo que estamos procurando realizar não pode menosprezar a lição fornecida”.





A bandeira poderá infundir o “Orgulho de ser Missioneiro” por recordar a irmandade com os missioneiros do outro lado do rio Uruguai e do rio Paraná, ou seja, com os argentinos e os paraguaios. Que a bandeira missioneira ultrapasse o pensamento que a história mais recente construiu, da visão de povos inimigos. Cada um de nós poderá refazer as ideias de Roque Gonzáles de Santa Cruz, Antônio Sepp, Sepé Tiaraju e tantos outros protagonistas da construção desta história da qual hoje ainda fazemos parte, pois assim poderemos compartilhar o sentimento de “gente de uma mesma nação”, nossa Nação Missioneira. 
  

AMIGOS: ESTA É A BANDEIRA DA NAÇÃO MISSIONEIRA; AJUDEM A DIVULGAR.


     
A Bandeira da Nação Missioneira na Redução de São João Batista - Primeira fundição de aço da América e local da criação da Harpa Paraguaia. — com Eduardo Alfredo Galeano, José Roberto de Oliveira e Luis Ernesto Noriega.
A Bandeira da Nação Missioneira em frente a Catedral em Santo Ângelo, a última das reduções dos 30 Povos. “O Caminhantes do Caminho das Missões estavam chegando naquele momento”. — com Caminho Das Missões, Eduardo Alfredo Galeano José Roberto de Oliveira e Luis Ernesto Noriega.

Fonte: José Roberto de Oliveira:
E-mail: joseroberto_deoliveira@yahoo.com.br
fone: 55.9638.6360.
Editado por Edison Franco.




sábado, 14 de dezembro de 2013

MISSÕES: PATRIMÔNIO DA HUMANIDADE

Em comemoração aos 30 anos da declaração do Sítio de São Miguel Arcanjo como Patrimônio da Humanidade, a Secretaria do Turismo (Setur/RS) promoveu o Seminário Internacional Missões - Patrimônio da Humanidade: turismo cultural e preservação, nos dias 12 e 13 de dezembro, em São Miguel das Missões. A atividade ocorreu em parceria com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e Prefeitura do Município.
O Sítio Arqueológico de São Miguel Arcanjo abriga parte da antiga redução Jesuítica-Guarani de São Miguel Arcanjo, fundada por volta de 1687, e o Museu das Missões, inaugurado em 1940. A elevação à Patrimônio da Humanidade reconheceu o valor histórico do local, que também completa 75 anos de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
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De acordo com a secretária do Turismo, Abgail Pereira, o sítio é parte importante da história do Rio Grande do Sul e, como tal, deve ser valorizado. “Estamos investindo nas Missões com o objetivo de atrair ainda mais turistas às ruínas. Entre as ações que estamos realizando com esse intuito, além da realização deste seminário, foi firmado um convênio com a Associação Amigos das Missões onde a Setur repassou R$ 185 mil para a aquisição de áudio guias em sete idiomas para o espetáculo Som e Luz, além de uma versão infantil em português, espanhol e guarani e uma em libras para auxiliar os deficientes auditivos”, disse.


Abgail destacou ainda que a Setur faz está inserida em um projeto do PAC das Cidades Históricas, do Ministério do Turismo (Mtur), que prevê a construção de um Centro Cultural das Missões, onde haverá um local diferenciado para receber os turistas.

O seminário internacional Missões - Patrimônio da Humanidade: turismo cultural e preservação foram realizados no Hotel Park Tenondé.
E-mail parque.missoes@iphan.gov.br -  telefone (55) 3381-1399.
12 de dezembro - Quinta-feira


8 h 30 min - Abertura oficial com a presença da secretária do Turismo, Abgail Pereira

9 h 30 min – Painel História e Arqueologia nas Missões, com Arno Kern, PUC – Arqueologia histórica nas missões jesuíticas coloniais platinas, Eduardo Neumann, UFRGS – A escrita indígena nas reduções do Paraguai (séculos XVII e XVIII), Walmir Pereira, Unisinos – Patrimônio Cultural da Humanidade e os guarani Mbya.
Moderação: Ronaldo Colvero, Diretor Uni Pampa – Campus São Borja.

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ARNO ALVAREZ KERN.

Nasceu em 5 de maio de 1940, em Santo Ângelo. Aos sete anos, acompanhando a família, fixou-se em Porto Alegre, onde completou a educação fundamental. Licenciou-se em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em 1969. Concluiu mestrado em História na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, em 1979, e doutorado em Arqueologia na École de Hautes Études en Sciences Sociales (Ehess), Paris, em 1981. Também fez dois pós-doutorados pela Ehess em 1996 e 1997.


Seu livro Missões: Uma Utopia Política foi publicada em 1982 pela editora Mercado Aberto. A edição está esgotada. Este ano, que marca o 30º aniversário de publicação do livro, o autor prepara uma segunda edição revista e aumentada. Professor aposentado da UFRGS, atualmente é professor do  programa de Pós-graduação em História da PUCRS. Especialista internacionalmente reconhecido em história das missões jesuíticas na região oeste do Rio Grande do Sul, é também autor de Utopias e Missões Jesuíticas (Editora da UFRGS, 1994) e Antecedentes Indígenas (Editora da UFRGS, 1994).

Zero Hora – ONDE O SENHOR NASCEU E CRESCEU? COMO E ONDE FOI SUA EDUCAÇÃO?

ARNO KERN – Ao dizer onde nasci você vai entender melhor por que faço pesquisa sobre Missões. Nasci em Santo Ângelo. Sou missioneiro, nasci na última redução fundada pelos jesuítas na região das Missões. Desde pequeno, ouvia lendas do subterrâneo e dos tesouros enterrados. Era comum, na sociedade missioneira, ir passar os finais de semana nas ruínas, fazer churrascos. Essa ligação com o passado missioneiro eu trouxe comigo quando vim para Porto Alegre. Na hora de escolher um tema para a dissertação de mestrado, feito também em Porto Alegre, me dei conta de que havia, no ambiente intelectual da época, uma série de controvérsias em relação ao tema. Para um autor, as Missões eram um sistema comunista antes de Marx. Outros diziam que era uma república de cristãos primitivos, como a Igreja cristã no início da história do cristianismo. Outros, em um viés um pouco mais rígido dentro do marxismo, achavam que era um socialismo missioneiro, modo de produção novo e original na história. Na realidade, ninguém conceituava nada. Algumas dessas abordagens implicavam dizer que os guaranis, porque não tinham propriedade privada, eram comunistas. Ora, os guaranis eram homens pré-históricos e os homens pré-históricos não tinham propriedade privada. Os jesuítas também seriam comunistas. Esquecia-se que todas as ordens religiosas fazem voto de pobreza e nem por isso se tornam comunistas. Isso dá uma ideia do tipo de controvérsia e de falta de clareza que havia. Em minha opinião, as Missões eram importantes por outros motivos. Em primeiro lugar, ficavam em uma dupla fronteira. Primeiro, uma fronteira entre Portugal e Espanha. Duas frentes de colonização se chocavam aqui, em um atrito bastante sério, e as Missões estavam exatamente no limiar entre esses dois grandes impérios coloniais. Segundo, as Missões se situavam em uma fronteira que me parecia evidente, mas da qual os historiadores da época não se davam conta: aquela entre a pré-história e a história. Existiam apenas 60 missionários nos povoados, com 150 mil guaranis recém-saídos da pré-história. Ao deixar suas aldeias, onde eram aldeões horticultores neolíticos – era o que eles eram, para não dizer que eram também canibais –, esses guaranis carregavam sua cultura para os povoados missioneiros.

ZH – AS MISSÕES FORAM PARTE DO PROJETO COLONIAL TANTO DE PORTUGAL COMO DA ESPANHA?

KERN – Portugal e Espanha usaram muito o sistema que Montoya (Antônio Ruiz de Montoya, jesuíta peruano, 1585 – 1652) chamou de “guerra espiritual”. Não foi uma campanha militar para conquista de território, a não ser bem no início. Era muito mais barato mandar um missionário com uma cruz na mão, um rosário, uma gravura de um santo e uma Bíblia. Você pegava indígenas loucos para ter acesso à tecnologia do branco, como o metal, e eles iam pouco a pouco se inserindo na sociedade portuguesa ou espanhola. Havia missionários jesuítas na Argentina, no Paraguai, no Rio Grande do Sul e em todo o resto do Brasil, mas também na Bolívia. Havia missões jesuíticas na região amazônica. O próprio Vieira (Antonio Vieira, jesuíta português, 1608 – 1697) andou pelas missões no Maranhão. Essas missões faziam a inserção dos grupos indígenas nos povoados espanhóis e portugueses. Essa fímbria entre a civilização que chegava e o mundo pré-histórico que havia prevalecido na América era muito delicada. É uma situação bem interessante do ponto de vista histórico. Na época em que comecei a pesquisar, o importante não era tanto escolher um tema para discorrer, mas encontrar um problema científico relevante na história. Ao me voltar para o tema das Missões, não só eu tinha esse problema, que ninguém havia resolvido convenientemente, como podia acrescentar um século a mais na história do Rio Grande do Sul. Todas as histórias do Estado naquela época, a maioria escrita por padres, generais, médicos, começavam com a fundação de Rio Grande, no século 18. Com o período missioneiro, ia-se ao século 17. E, se considerarmos que os guaranis chegaram aqui há 1,4 mil anos, acrescentava-se uma boa parte de pré-história a esse intervalo.

ZH – OS MISSIONÁRIOS TINHAM UM PLANO DETERMINADO SOBRE COMO REALIZAR SEU TRABALHO OU ATUAVAM DE IMPROVISO?

KERN – Os jesuítas queriam que esses guaranis se transformassem em cristãos e fossem reduzidos, como eles diziam, à vida política. Era preciso que se reunissem em um povoado, onde seriam homens politizados, distantes do nomadismo pré-histórico. Nesse ponto, os jesuítas são muito pragmáticos. Eles partem da concepção, baseada na filosofia grega de Platão e Aristóteles, de que é preciso reduzir o indivíduo à vida na cidade, torná-lo um cidadão. Depois de civilizado, esse indivíduo será cristianizado. O problema era bastante complicado. Era preciso convencer diversos caciques, com seus vassalos, a fundar uma cidadezinha, um “pueblo de indios”, como é dito na documentação espanhola. Isso implicava arregaçar as mangas, se é que as tinham, e fazer um trabalho hercúleo: instalar uma praça central, fazer ruas, construir uma igreja no fundo da praça. Seria preciso organizar a instalação desses grupos indígenas nesse espaço. A herança indígena, porém, é muito forte e vai pesar na formação do povoado missioneiro. A plaza Mayor, típica da cidade espanhola, era uma herança da ágora grega e do fórum romano. As ruas se cortavam em ângulo reto, uma característica que vem do mundo grego. Mas não havia quarteirões de casas, como nas cidades europeias. As casas eram típicas ocas indígenas amazônicas, onde os caciques viviam com seus vassalos. Não havia funcionários do rei, somente padres. Junto à igreja, cria-se um conjunto com cemitério, claustro, pátio dos artífices e quinta. Existem 2 mil exemplares desse tipo de construção na Europa: são os mosteiros medievais. Primeiro, os dos beneditinos, depois cluniacenses, franciscanos, dominicanos. A última, fundada na Renascença, foi a dos jesuítas alunos de Erasmo de Roterdã. Eles implantaram um modelo que funcionou em toda a Europa para a catequização em territórios pagãos.

ZH – QUAL FOI O IMPACTO DA SUA PESQUISA NA MANEIRA COMO O ELEMENTO INDÍGENA É VISTO NA HISTÓRIA RIO-GRANDENSE?

KERN – Quando eu cursava a universidade, houve comemorações de diversas efemérides de imigração: alemã, italiana. Faltava um personagem em nossa história, que era muito malvisto. Era menosprezado como desimportante, em pequeno número e sem contribuição relevante. Havia um autor da época que falava mesmo em “viveiro guarani”. Ora, viveiro remete a animais, não gente. Por outro lado, o processo de colonização vai levar ao povoamento da região. Os jesuítas não queriam escravos. Como não havia muros nem portas de entrada, todos podiam entrar e sair do povoado quando quisessem. Os índios eram atraídos com peças de metal. ROQUE GONZÁLEZ (jesuíta paraguaio, 1576 – 1628) tinha uma frase muito engraçada: ele dizia que, com uma lâmina de machado dada a um cacique, se ganhava as “almas” dos índios – como se fossem as almas dos índios que eles estivessem ganhando. Os índios não sabiam bem para que servia aquilo, mas sabiam que era importante, pois poderiam derrubar uma floresta com mais facilidade do que se usassem seus machados neolíticos. Muitos anos antes das Missões, o conquistador espanhol Solís (Juan Díaz de Solís, descobridor do Rio da Prata) recebeu uma homenagem muito grande dos guaranis. Como ele chegou mostrando que era um poderoso feiticeiro, capaz de levar uma ilha de um lado para outro – os índios imaginavam que as caravelas eram ilhas –, os guaranis o receberam em terra e o comeram em um ritual de canibalismo para incorporar os poderes daquele xamã. Não sei se Solís entendeu bem a homenagem que estava recebendo. (Risos.) Assim, o indígena entra na história e dá uma contribuição muito grande ao processo de colonização. Os missionários sobreviveram graças à alimentação indígena – o milho, a mandioca. Havia superávit de alimentos, e isso salvou os europeus nas povoações. O problema não era a agricultura, e sim a caça: para caçar, os índios tinham de migrar e voltavam a ter hábitos “pagãos”, na expressão dos jesuítas. Nesse momento, introduz-se o rebanho de gado.

ZH – OS JESUÍTAS PODIAM ATRAIR OS ÍNDIOS COM PRESENTES, MAS COMO CONSEGUIAM CONVENCÊ-LOS A PERMANECER NO POVOADO?

KERN – Uma das coisas que os jesuítas fazem é dizer aos índios: vocês estão aí lutando contra a conquista portuguesa e espanhola, têm de enfrentar os bandeirantes e nós lhes oferecemos armas de fogo. Mais de 800 armas de fogo foram introduzidas nas Missões pelos jesuítas, os índios passaram a se exercitar no manejo dessas armas e foi graças à criação de uma milícia guarani que a Espanha deixou de perder territórios. O resultado disso é que, nos povoados missioneiros, guaranis foram armados para defender a fronteira espanhola. Armados, esses guaranis não seriam escravizados nem pelo português nem pelo espanhol. Há um grande compromisso de parte a parte, e se a letra do contrato não for cumprida, rompe-se a relação. Seria impossível que os 60 jesuítas radicados nas Missões prendessem dezenas de milhares de guaranis. Os índios dariam risada e pagariam com a própria vida para evitar que isso ocorresse.

ZH – EM QUE MOMENTO AS ARMAS SÃO INTRODUZIDAS?

KERN – Em um primeiro momento, eles tentam fazer paliçadas para se defender, mas não conseguem deter os bandeirantes que avançam até o Rio Grande do Sul. A certa altura, um ouvidor da Coroa espanhola decide que a solicitação de armas feita pelos jesuítas estava correta e autoriza o armamento dos índios. No momento em que as armas são entregues, trava-se no Uruguai a Batalha de Mbororé (1641), na qual os bandeirantes – na realidade, cerca de 500 paulistas e mil índios tupis – são derrotados por pouco mais de 3 mil guaranis. Mas foi uma batalha de três dias. Nessa primeira etapa, começa a ocorrer o armamento indígena. A Espanha percebe que vai perder todos os territórios ao sul do Brasil. Se fossem contabilizados todos os espanhóis da região, incluindo ASSUNÇÃO E BUENOS AIRES, não havia mais de 500 soldados. Se uma bandeira vinha com quase 1,5 mil homens, não havia tropa espanhola que pudesse detê-la. Então, esse é a razão pela qual o armamento indígena é vital. E, se é assim, não há como escravizar esses índios, por mais que Assunção e Buenos Aires vejam esses indígenas como mão de obra escrava potencial. No entanto, pelo menos até o final da experiência missioneira, isso não foi possível. Muitos historiadores dizem que, afinal, os jesuítas conseguiram isso. Sim, mas conseguiram porque havia uma guerra na fronteira. Se não fosse assim, talvez eles não conseguissem de Espanha essa concessão imensa de armar os guaranis e colocá-los em serviço nas batalhas. Portugal fez isso uma vez, para combater a invasão holandesa no Nordeste. Os índios foram armados e, assim que os holandeses foram expulsos, desarmados.

ZH – COMO OCORRE O DESAPARECIMENTO DA EXPERIÊNCIA MISSIONEIRA?

KERN – A Guerra Guaranítica (conflito de 1750 a 1756, que opôs Espanha e Portugal, de um lado, e os Sete Povos rebelados da margem esquerda do Rio Uruguai, de outro, tendo os últimos rejeitados os termos do Tratado de Madri e se recusado a aceitar o domínio português) abate o moral dos indígenas, mas não provoca o desaparecimento de nada. Os portugueses tentam incendiar São Miguel, mas não conseguem. Se tu olhares atrás do altar-mor das ruínas da Catedral de São Miguel, há pedras estouradas pelo calor do fogo. A vida continua durante um tempo, mas a Companhia de Jesus, a certa altura, é expulsa por razões relacionadas à política na metrópole. No lugar deles, são enviados franciscanos ou administradores do Estado para ocupar seus lugares. Quando os jesuítas vão embora, os guaranis entendem que seus XAMÃS os estão abandonando e começam a deixar os povoados. Nesse momento, gradualmente, começa a degradação dos povoados. Cada viajante do século 19 que passa pelos Sete Povos conta uma história pior: a Igreja era muito bonita, mas não existe mais, há apenas algumas centenas de índios morando lá. É uma lenta degradação que ocorre de forma contínua até dar lugar à ruína de hoje. O espírito coletivo desaparece. Os guaranis saíram dos povoados e foi para as cidades espanholas e portuguesas oferecer sua força de trabalho. Sabiam trabalhar o couro, o metal, fazer ladrilhos cerâmicos e telhas. Tinham aprendido isso no pátio dos artífices das missões e fazem o trabalho artesanal que os espanhóis não quiseram fazer, porque tinham vindo para cá enriquecer e não para trabalhar.

ZH – NÃO FORAM APENAS PARA AS CIDADES, MAS PARA AS ESTÂNCIAS.

KERN – Com certeza. Já havia estâncias missioneiras quando os portugueses e espanhóis tomaram conta daquela região. Esses índios vão dar origem ao homem campeiro, ao gaúcho. Até hoje, quando um gaúcho encontra outro, dá um tapa no ombro e diz: “Índio velho”. Isso é extremamente amigável e gentil, não é nenhuma ofensa. Eles se reconhecem pela cara. Eles estão aí sempre, nunca desapareceram. Apenas mudaram de nome.


2º PALESTRANTE:
EDUARDO SANTOS NEUMANN  DOUTOR - UFRJ / HISTÓRIA SOCIAL –



ALFABETIZAÇÃO, NAS REDUÇÕES JESUÍTICAS-GUARANIS E A APROPRIAÇÃO DA ESCRITA PELOS INDÍGENAS.



É Historiador e professor do departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. É mestre em História pelo Programa de Pós Graduação em História (UFRGS), período no qual foi contemplado com uma bolsa de estudos do Instituto de Cooperação Ibero-americana (Espanha) para a realização de pesquisa em arquivos. É doutor em História Social pelo Programa de Pós Graduação em História Social/ UFRJ (2005),realizando pesquisa na Espanha com bolsa "sanduíche" (2003/2004). Temas de investigação: história social da escrita, história da América espanhola e história indígena. Desenvolve suas pesquisas no âmbito da história da América colonial, privilegiando a sociedade rio-platense e sua condição de fronteira. Atualmente investiga as práticas letradas no rio da Prata, especialmente o impacto da alfabetização nas reduções jesuítico-guaranis e a apropriação da escrita pelos indígenas.

PALESTRA PROFERIDA DIA 12 DE DEZEMBRO DE 2013-
SEMINÁRIO INTERNACIONAL MISSÕES - PATRIMÔNIO DA HUMANIDADE!!!

A palestra analisou os usos; funções e práticas da escrita indígena nas reduções do Paraguai nos séculos XVII e XVIII. A pesquisa visa demonstrar o valor conferido à escrita, pelos Guaranis, como uma adesão às regras do jogo político e às estratégias de negociação; através do domínio dos códigos escritos. Os documentos redigidos em guarani e; posteriormente; em espanhol; possibilitam examinar a difusão da escrita nas reduções. A instrução letrada; indissociável da catequese promovida nas reduções proporcionou aos índios missioneiros as condições para produzirem novas formas de expressão. Através das atividades religiosas e administrativas; houve um convívio com as práticas letradas que produziram efeitos sobre toda coletividade. A alfabetização nas reduções esteve limitada aos índios mais aptos ou de maior confiança dos missionários; ou seja; àqueles que integravam a “elite missioneira. O que se propõe analisar são os aspectos relacionados à escrita como uma prática sociocultural; demonstrando em que circunstâncias os Guarani fizeram uso da habilidade gráfica ou recorreram à aptidão de outros para produzirem relatos. O intenso uso da escrita por parte dos Guaranis letrados foi verificado a partir da celebração do Tratado de Madri; em 1750; pelas monarquias ibéricas. Este fato desencadeou a “reação escrita” desses indígenas que; como mecanismo de protesto; redigiram vários textos; esgrimindo argumentos contrários à execução da permuta das missões orientais pela Colônia do Sacramento. Com início dos trabalhos de demarcação e o rompimento da aliança que sustentava as relações entre as lideranças indígenas e os jesuítas; os Guarani destinaram à escrita uma finalidade política; como instrumento de seu alto governo. Através do envio de cartas e bilhetes; procuraram estabelecer redes de comunicação e organizar a resistência missioneira diante da presença das comissões demarcadoras. Após a expulsão dos jesuítas; a capacidade alfabética se apresenta de maneira desvinculada da reescrita religiosa. O conhecimento das regras epistolográficas permitiu aos índios estabelecer canais de comunicação diretamente com a administração colonial. Através do envio de cartas e memoriais; procuravam atuar dentro do legalismo das regras escritas.

Fonte: http://www.dominiopublico.gov.br/logon/cad_usuario.jsp

12 h – Intervalo

13 h 30 min – Painel Arte, Arquitetura e Urbanismo nas Missões, com Ramón Gutierrez, CONICET, Argentina – Urbanismo das missões guaranis – um modelo alternativo, Darko Sustersic, UBA, Argentina – Contribuição dos Guaranis no desenvolvimento de novos padrões artísticos na imaginária e na arquitetura missioneira e Myriam Ribeiro de Oliveira, UFRJ – O universo iconográfico das imagens jesuítas do tipo missioneiro: notas para uma abordagem geral do tema

Moderação: Eduardo Hahn – Superintendente IPHAN-RS

15 h 30 min – Intervalo

16 h - Painel Antropologia e Etnologia nas Missões, com Beatriz Freire, IPHAN – Missões revisitadas: o Registro de São Miguel Arcanjo a partir de concepções Guarani, Flávio Leonel Abreu da Silveira, UFPA – Paisagem missioneira e transculturação na porção austral brasileira e Ariel Ortega, cineasta e cacique da Aldeia Koenju.

Moderação: Muriel Pinto, Uni pampa - Campus São Borja

18 h 30 min – Encerramento

20 h – Cinema nas Ruínas – apresentação do filme Duas Aldeias, uma Caminhada, realizado pelo grupo de jovens guaranis (sacristia da antiga igreja de São Miguel Arcanjo)
21 h 30 min – Espetáculo Som e Luz

13 de dezembro – Sexta-feira

9 h – Painel Marketing do Turismo Cultural, com Américo Córdula, Secretário de Políticas Culturais do Ministério da Cultura, Victor Toniolo, Coordenador de Acompanhamento e Estruturação de Produtos EMBRATUR, Carlos Augusto Silveira Alves, Presidente da Associação Amigos das Missões e Camila Mumbach, Diretora de Promoção e Marketing da Setur/RS

Moderação: Geovani Gisler, Instituto Iguassu-Misiones

12 h – Intervalo

13 h 30 min - Painel Patrimônio e Turismo Cultural nas Missões, com Pedro Salmeron, Instituto Andaluz do Patrimônio Histórico (IAPH), Espanha – Estratégias comparadas sobre turismo cultural nos Guias da Paisagem de Alhambra e Sevilha: bases de partida para o caso das Missões Jesuítico-Guarani, Andrey Schlee, IPHAN/Brasília e Ramón Gutierrez, CONICET, Argentina – Projeto Itinerário Cultural do MERCOSUL - Missões.

Moderação: Maximilianus Pinent – Diretor de Desenvolvimento do Turismo da SETUR-RS.

15 h 30 min – Intervalo

16 h - Painel As Missões como Patrimônio e Paisagem Cultural, com Ana Lúcia Goelzer Meira, IPHAN/RS – A trajetória do IPHAN nas Missões: da pedra e cal às referencias imateriais, Diego Luis Vivian, IBRAM – Museu das Missões: 1940 – 2013 e Pedro Salmerón, Instituto Andaluz do Patrimônio Histórico - IAPH, Espanha – Guia da Paisagem das Missões.

Moderação: Prefeitura Municipal de São Miguel das Missões

18 h 30 min – Encerramento

20 h – Cinema nas Ruínas – apresentação do filme Duas Aldeias, uma Caminhada, realizado pelo grupo de jovens guaranis (sacristia da antiga igreja de São Miguel Arcanjo)

21 h 30 min – Espetáculo Som e Luz.

Editado por: Edison Franco.